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Bolsonaro vende como “grande negócio”, mas acordo só é bom para os EUA

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No início deste século, o então primeiro-ministro britânico Tony Blair tornou-se conhecido no mundo inteiro como o “poodle de Bush”, de tanto apoiar cegamente a campanha do presidente norte-americano por uma guerra com o Iraque. Quase vinte anos depois, a crescente subserviência aos Estados Unidos faz de Jair Bolsonaro o “cãozinho adestrado de Trump”, nas palavras do professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) Sergio Amadeo, em entrevista ao portal ‘ Brasil de Fato’.

Embora o acadêmico tenha se referido especificamente ao posicionamento subserviente do desgoverno Bolsonaro na disputa tecnológica entre Estados Unidos e China, no caso dos três acordos EUA-Brasil anunciados na segunda (19), a qualquer aceno de seu similar norte-americano Bolsonaro também “vai atrás balançando o rabo”, como compara Amadeo, um dos principais especialistas em tecnologias da informação e da comunicação no país.

O presidente brasileiro mencionou os acordos durante a abertura da conferência de negócios US-Brazil Connect Summit, organizado pela Câmara de Comércio dos Estados Unidos (Amcham). Um versa sobre comércio, outro sobre práticas regulatórias e o terceiro sobre práticas anticorrupção. Segundo matéria da ‘ BBC News Brasil’, os três foram fechados após 22 meses de negociação entre as gestões Trump e Bolsonaro, a 15 dias de uma eleição presidencial cada vez mais difícil para o republicano.

Analistas apontaram que o Brasil estava ansioso para que o protocolo fosse assinado antes das eleições nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro. “Sob uma possível presidência de Joe Biden, os acordos comerciais com o Brasil enfrentarão mais obstáculos”, apontou a consultoria Eurasia Group.

Para o professor de relações internacionais Pedro Costa Júnior, da Faculdade de Campinas (Facamp), o Protocolo ao Acordo de Comércio e Cooperação Econômica bilateral, descrito pelo Itamaraty como um pacote ambicioso e moderno, pode cair por terra em algumas semanas. “Caso o candidato [Joe] Biden seja eleito presidente, ele pode retificar esses acordos”, afirmou o especialista em entrevista à ‘Sputnik Brasil’.

Segundo o sociólogo Marcelo Zero, entre os acordos está uma carta de intenções celebrada na terça (20) entre o ministro-banqueiro da Economia, Paulo Guedes, e a presidente do EximBank (Banco de Exportação e Importação dos EUA), Kimberly Reed, para identificar oportunidades de financiamento de até US$ 1 bilhão (R$ 5,6 bilhões) em exportações norte-americanas para o Brasil.

Conforme o memorando de entendimento, o EximBank, que é o BNDES ianque, financiará projetos de infraestrutura, principalmente telecomunicações e 5G – o leitmotiv da disputa EUA-China. Mas o “grande negócio” para o Brasil, segundo alguns analistas econômicos da imprensa corporativa nacional, no fundo é um “negócio da China” para os… Estados Unidos, que vão conceder empréstimos para o país de Bolsonaro comprar exclusivamente bens e serviços norte-americanos e, de quebra, eliminar a concorrência de empresas chinesas por aqui.

O “vira-latismo” bolsonarista, como o sociólogo descreve em artigo, ocorre num momento de redução substancial da corrente de comércio Brasil/EUA e de aplicação contínua de medidas protecionistas contra produtos brasileiros, como alumínio, aço e etanol. Também vai ampliar ainda mais nosso déficit comercial com os Estados Unidos e aumentar a dependência tecnológica em relação a Washington.

Trump eleva barreiras tarifárias contra Brasil

Dez dias antes do anúncio triunfal de Bolsonaro, Trump impôs um aumento de tarifas à importação de alumínio de dezoito países, entre eles o Brasil. A acusação é de que os países estariam praticando dumping – acordo espúrio para vender produtos abaixo do preço considerado justo e prejudicar a concorrência.

De acordo com o Departamento do Comércio dos EUA, o Brasil, que exporta US$ 97 milhões (R$ 544,3 bilhões), enfrentará as taxas mais altas – os adicionais irão variar de 49,48% a 136,78%. Atualmente, os exportadores brasileiros pagam uma taxa de cerca de 15%. No final de 2019, o governo americano já havia aumentado essas tarifas, alegando que seria uma resposta à desvalorização do dólar.

A medida é considerada uma forma de Trump acenar para a indústria siderúrgica americana, que em 2016 compôs parte importante de sua base eleitoral. A decisão teve forte reação do setor de produção, comercialização e de fornecedores que compõem a cadeia brasileira do alumínio, congregados na Associação Brasileira do Alumínio (Abal).

“Assistimos com preocupação a escalada de restrições impostas pelos Estados Unidos aos seus parceiros comerciais. É um processo que começou com sanções à China e que vem recrudescendo desde então. A intenção anunciada de impor tarifas aos principais exportadores de chapas de alumínio é algo nunca visto nas relações de comércio internacional”, afirmou a entidade em nota oficial.

Para Milton Rego, presidente da Abal, a decisão, tomada de forma súbita e sem provas, representa uma represália sem precedentes que pode inviabilizar as exportações dos produtos brasileiros. No ano passado, os embarques somaram 31,52 mil toneladas.

“Os EUA atiram primeiro e perguntam depois. É isso o que eles estão fazendo do ponto de vista do comércio internacional. Com a justificativa de defesa da indústria nacional, tomam ações protecionistas que começaram com a 232. O que fizeram agora é pior do que a 232”, disse Rego, se referindo à Seção 232, dispositivo criado a pretexto de defender os interesses norte-americanos usado para subjugar e retaliar outros países.

Nesta segunda, enquanto Bolsonaro se gabava dos acordos, Trump anunciou a reinstalação da política de taxação e de cotas, que tem como alvos, além do alumínio, também o aço que o Brasil exporta para lá. Desde 2018 discute-se essa política, com a suspensão simultânea das cotas (o governo ianque é que determina quanto poderá ser exportado pelo Brasil de alumínio e de aço) e sobretaxa de 25% sobre o aço.

Estimativa divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) dá conta de que as medidas protecionistas adotadas pelo governo Trump impactam negativamente as exportações brasileiras em US$1,6 bilhão (R$ 8,98 bilhões) por ano.

Em março de 2018, ocorreu a imposição da primeira medida protecionista (de quotas para as compras de aço brasileiro e a taxação de 10% das compras de alumínio). Diversos países, como Rússia, Índia e Turquia, além da União Europeia, abriram reclamações na Organização Mundial do Comércio (OMC). O governo brasileiro calou-se.

Em janeiro de 2020, os EUA abriram investigação que pode sobretaxar exportações de molduras de madeira do Brasil e da China em até 200%. Conforme a CNI, essa ação pode reduzir as exportações brasileiras em US$ 300 milhões anuais.

No final da última semana, o governo brasileiro anunciou a redução, de 8% para zero, da tarifa sobre importações de soja e milho, a pretexto de conter altas de preços internos. Os EUA, únicos que podem se beneficiar da medida, por questões de calendário agrícola, agradecem.

Em setembro, após uma sequência de derrotas no comércio bilateral, Bolsonaro foi ao Twitter anunciar que os americanos aumentarão a compra de açúcar brasileiro em 80 mil toneladas e afirmar que esse é “o primeiro resultado das recém-abertas negociações Brasil-EUA para o setor de açúcar e álcool”. A manifestação ocorreu semanas após o Brasil renovar uma isenção de tarifas à entrada de quase 200 milhões de litros de etanol americano no país, o que o setor sucroalcooleiro classificou como “enorme sacrifício”.

“No geral, há uma percepção de que o Brasil não está sendo tratado de uma maneira justa perante os Estados Unidos, por isso o governo está tentando dar uma publicidade para algo trivial e esperado, para buscar um equilíbrio nessa imagem para o seu público”, afirmou reservadamente à ‘BBC News Brasil’ um embaixador especializado em comércio internacional.

Segundo o diplomata, trata-se de algo “trivial” e “esperado” porque embora o presidente sugira que houve um incremento permanente na quantidade de açúcar que o Brasil poderá exportar aos americanos, o que aconteceu na verdade foi uma realocação temporária de fornecedores feita pelos americanos.

“Os Estados Unidos não fizeram nenhum favor ao Brasil, apenas realocaram algum volume (de açúcar) ao Brasil, dentro do mercantilismo geral deles. Isso precisa ser esclarecido, para que não pareça uma vitória diplomática que não foi”, afirmou o embaixador Paulo Roberto de Almeida.

Comércio Brasil-EUA atinge a pior marca em 11 anos

O comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos até setembro registrou em 2020 o pior resultado dos últimos 11 anos. Segundo o estudo ‘Monitor de Comércio Brasil-Estados Unidos’, o valor das trocas comerciais entre janeiro e setembro de 2020 foi de US$ 33,4 bilhões, redução de 25,1% em relação ao mesmo período de 2019.

“A contração de um quarto da corrente de comércio entre Brasil e Estados Unidos é um golpe duro no comércio bilateral, sendo o pior resultado para o período desde a crise econômica de 2009”, afirma o vice-presidente executivo da Amcham Brasil, Abrão Neto.

O relatório aponta três fatores principais para explicar a forte redução das trocas bilaterais. “A combinação dos graves efeitos da crise econômica causada pela pandemia, da queda do preço internacional do petróleo e de restrições comerciais em setores específicos, como o siderúrgico, responde por grande parte da contração do comércio bilateral”, contextualiza Abrão.

No acumulado do ano, as exportações brasileiras para os EUA caíram 31,5% em comparação com igual intervalo de 2019, alcançando o total de US$ 15,2 bilhões. É o menor valor para o período desde 2010. Em termos relativos, os EUA foram o mais afetado entre os 10 principais destinos de exportação do Brasil em 2020.

“Foram US$ 7 bilhões de dólares a menos em exportações. Como o perfil do comércio bilateral é composto principalmente por produtos de maior valor agregado, a atual crise econômica atingiu em cheio nossas exportações para os Estados Unidos. A taxa de queda foi quatro vezes maior do que a redução das exportações totais do Brasil para o mundo”, explica Abrão.

Como resultado do encolhimento das exportações e importações, a tendência é que o Brasil registre o maior déficit comercial com os Estados Unidos dos últimos cinco ou seis anos, aponta o documento. Até o momento, o saldo negativo foi de US$ 3,1 bilhões (R$ 17,4 bilhões) em desfavor do país. Em 2019, o Brasil tornou-se deficitário comercial em US$ 300 milhões ante os EUA. Foram US$ 29,7 bilhões em exportações e US$ 30 bilhões em importações.

Apesar da forte redução do comércio bilateral, os EUA continuam sendo o segundo principal parceiro comercial do Brasil (12,3% do total das trocas brasileiras com o mundo). A China se mantém em 1º lugar, tendo aumentado sua fatia para 28,8%, segundo dados do estudo da Amcham. E a tendência é aumentar, considerando o bom desempenho da economia chinesa: surpreendentes 4,9% de crescimento no terceiro trimestre de 2020 e previsão de crescimento de 1,9%, em 2020, segundo o Fundo Monetário Iternacional (FMI).

Por PT Nacional

 

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