Home Portal Multimídia Lula fala sobre a fome

Lula fala sobre a fome

21 min read
0

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez nesta sexta-feira (16) um novo pronunciamento. Na data em que marca o Dia Mundial da Alimentação, Lula falou ao Brasil sobre a volta da fome, que já é sentida por milhões de brasileiros.

Para assistir, acesse Aqui

LULA FALA AO BRASIL: A FOME VOLTOU

LULA FALA AO BRASIL: A FOME VOLTOU

Posted by PT na Câmara on Friday, October 16, 2020

Leia a íntegra do discurso

“Minhas amigas e meus amigos,

Mais de 150 países celebram hoje, 16 de outubro, o Dia Mundial da Alimentação, data criada para conscientizar a opinião pública para a tragédia da desnutrição e da fome. Temos que comemorar também a recente concessão do Prêmio Nobel da Paz ao Programa Mundial de Alimentação da ONU.

Lamentavelmente o Brasil não tem o que festejar no Dia Mundial da Alimentação.

Ao contrário. Vivemos dias muito difíceis.

Em meio a uma pandemia que já ceifou 150 mil vidas, os preços dos principais alimentos dispararam. O arroz subiu quase 20% desde o início do ano. O feijão, quase 30%. O leite, mais de 20%. Alguns produtos de primeira necessidade desapareceram dos supermercados.

Tudo indica que os preços continuarão subindo nos próximos meses. É a face mais cruel do terrível fantasma da fome, rondando de novo os lares de milhões de brasileiros.

Há poucos dias o IBGE divulgou os números de 2018 sobre a insegurança alimentar no Brasil. Eles confirmaram o que os brasileiros já sabiam: os casos de pessoas com fome voltaram a subir fortemente. Mais de 10 milhões de brasileiros e brasileiras, inclusive crianças, estão passando fome.

Seis anos atrás o Brasil conquistava o respeito e a admiração mundial, ao ser declarado fora do Mapa Mundial da Fome da ONU. Depois do golpe contra a presidenta Dilma, o país deu marcha a ré. Os golpistas mergulharam nosso país num poço sem fundo. Não são números do PT, são números da ONU.

É inaceitável que no Brasil tantos homens, mulheres e crianças não tenham o que comer. Afinal, somos um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Este ano, a safra de grãos deve bater novo recorde: 257 milhões de toneladas. Ou seja, produzimos mais de uma tonelada por habitante, o suficiente para que cada brasileiro tivesse acesso a três quilos de grãos por dia.

O agro pode ser pop, como dizem os caríssimos anúncios na televisão, mas não resolve o problema da Fome. Repito: mais de dez milhões de brasileiros não têm o que comer. Isso sem falar nos 74 milhões que estão, segundo os técnicos, em “situação de insegurança alimentar média ou leve”. Na mesa do pobre, porém, a fome não tem nada de média ou leve. Na vida real, é quando a mãe e o pai não comem para alimentar as crianças. Ou quando a família sacrifica a qualidade do que come para que todos possam comer.

Como conviver com tamanha crueldade?

Meus amigos e minhas amigas.

Por muito tempo – décadas e séculos – a fome foi tratada como parte integrante da vida dos pobres no Brasil. Parecia algo inevitável, como o calor e o frio, a seca e a chuva. Aceitava-se como normal que crianças morressem por não ter o que comer. Que famílias inteiras fossem dormir sem terem comido nada o dia inteiro, e que acordassem no dia seguinte sem saber se comeriam ou não. Não havia como evitar que uma mãe faminta fosse obrigada a dividir um único ovo entre os filhos.

Saber que a Humanidade produz mais alimentos do que consome significa afirmar que a fome não é um problema causado pela natureza. A fome é resultado da irresponsabilidade e da insensibilidade de governantes que não têm interesse em enfrentar e curar essa chaga.

Eu não me canso de repetir que a fome é a arma de destruição em massa mais poderosa e perigosa que qualquer outra que o homem tenha inventado. A fome não mata soldados no campo de batalha, não mata inimigos, não mata terroristas. Ela mata crianças.

Graças a Josué de Castro começamos a entender que a fome não é um fenômeno natural. Que a fome é um problema político. Que acabar com a fome só será possível com uma justa distribuição da riqueza que é produzida por todos.

Foi preciso que chegasse à Presidência da República alguém que conheceu a fome na própria pele para dizer: Basta! E mostrar que era – e continua sendo – possível dizer NÃO a essa indignidade.

Meu primeiro compromisso como presidente foi acabar com a fome no Brasil. Está lá, no meu discurso de posse, para quem quiser ver: “Se, ao final do meu mandato, todos os brasileiros tiverem a possibilidade de tomar café da manhã, almoçar e jantar, terei cumprido a missão da minha vida”. Deixei o governo em 2010 com a certeza da missão cumprida.

Em apenas dez anos, entre 2003 e 2013, retiramos nada menos que 40 milhões de brasileiros da pobreza extrema e acabamos com a fome no Brasil.

Enfrentar a fome de peito aberto foi possível graças à implantação de uma política eficiente de segurança alimentar. Aplicamos políticas públicas de transferência de renda, como o Bolsa Família. Em treze anos concedemos aumentos reais do salário mínimo. Geramos milhões de empregos com carteira assinada e direitos trabalhistas garantidos.

Em apenas quatro anos destruíram tudo o que fizemos.

É importante lembrar que os números do IBGE a que me referi antes são de 2017 e 2018. Portanto, é mentira dizer que o Coronavírus seja o responsável pelo absurdo crescimento da fome nesse período

A tragédia alimentar que vivemos hoje foi provocada basicamente pelo desmonte do Estado e pelo esvaziamento ou abandono das políticas públicas de inclusão social após o golpe.

Depois do golpe de 2016, o combate à miséria e à fome deixou de ser prioridade.

Intoxicados pela crença de que o Estado não tem qualquer papel a cumprir na economia – a não ser garantir lucros ao setor financeiro e enriquecer ainda mais os milionários – os governos depois da Dilma promoveram um desmonte sistemático dos estoques reguladores de alimentos, essenciais para garantir preços justos e acessíveis à população. Especialmente à população pobre.

Durante os nossos governos, a CONAB, a Companhia Nacional de Abastecimento, empresa pública do Ministério da Agricultura, comprava os excedentes na época de safra. Com isso, evitava que o preço ao produtor despencasse, o que poderia afetar negativamente o plantio da safra seguinte.

E quando surgia o risco de desabastecimento, colocando em risco a alimentação da população, a CONAB tinha estoques estratégicos para atuar nas crises, enchentes, secas, ou mesmo em momentos de aumentos de preços. Com isso nós impedíamos a ação dos atravessadores e especuladores e garantíamos o poder de compra da população.

Infelizmente, devido à política de desmonte do Estado praticada pelos últimos governos, o Brasil foi apanhado de calças curtas e entrou na pandemia com os estoques públicos de alimentos praticamente zerados.

O caso do arroz é o exemplo mais visível. Em 2010, a CONAB armazenou quase 1 milhão de toneladas do grão. Neste ano de 2020, o estoque ficou reduzido a apenas 21 mil toneladas, o que não garante nem um dia de consumo. O feijão, outro produto básico da mesa dos brasileiros, deixou de ter estoques reguladores há três anos.

Desmantelaram os estoques públicos e desmontaram os principais programas de incentivo à agricultura familiar, responsável pela produção de grande parte dos alimentos que vão à mesa dos brasileiros.

A destruição da estrutura alimentar não parou aí. O Programa de Aquisição de Alimentos, inovação brasileira adotada mais tarde em quase toda a América Latina, chegou a investir R$ 1 bilhão e 200 milhões de reais na compra de alimentos da agricultura familiar, beneficiando de um lado os produtores e de outro a população vulnerável. Na proposta orçamentária para o ano que vem, esse valor vai sofrer uma redução de 90%, caindo para R$ 100 milhões.

Um dos primeiros atos do atual presidente foi fechar, no dia da sua posse, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar. O resultado não poderia ser outro: a fome voltou a crescer no país.

Minhas amigas e meus amigos,

O aumento da fome no Brasil, em grande medida, é resultado do gravíssimo quadro do desemprego. Só este ano, entre os meses de maio e agosto, quase 4 milhões de trabalhadores e trabalhadoras perderam seus empregos.

O Brasil tem hoje 13 milhões de desempregados, a maioria jovens pobres e de classe média. Outros 17 milhões pararam de procurar emprego por causa da pandemia, ou porque perderam a esperança de conseguir trabalho, qualquer trabalho.

A massa salarial – o bolo de dinheiro que paga todos os salários no país – caiu 15% em um ano. Enquanto isso, 40 bilionários brasileiros aumentaram suas fortunas em 170 bilhões de reais. Os pobres estão cada vez mais pobres, e os ricos cada vez mais ricos.

O resultado dessa arquitetura da destruição é que a economia brasileira mergulhou na maior recessão da sua história.

Dentro desse quadro dramático, o Bolsonaro disparou um tiro de misericórdia contra os pobres e reduziu pela metade o valor do auxílio emergencial, de 600 para 300 reais, além de excluir um grande número de beneficiários do programa. E já avisou: o auxílio emergencial acaba em dezembro, mesmo que a pandemia continue.

É imperioso manter o auxílio emergencial de 600 reais enquanto durar a pandemia. Conclamo todos a apoiarem a campanha lançada pelas centrais sindicais, exigindo do Congresso a imediata votação dessa medida. Nenhum real a menos!

Minhas amigas e meus amigos,

Enganam-se os que acreditam que esse desgoverno vai nos derrotar, nos colocar de joelhos. O Brasil é muito maior do que essa gente que tomou Brasília de assalto. Nosso povo é muito maior do que as elites que só pensam em si mesmas. Mais uma vez o brasileiro saberá dar a volta por cima. O povo que já derrubou uma ditadura de generais não treme diante de capitães autoritários.

Esse meu desabafo é um chamamento a todos os homens e mulheres de bem que ainda conseguem se indignar com a volta da fome ao nosso pais.

A fome não é uma maldição, não é uma praga bíblica que se abateu sobre os brasileiros pobres. A fome é um tormento social que resulta, principalmente, de opções econômicas feitas pelos governantes. A fome é um flagelo que só terá fim quando distribuirmos a riqueza para que o povo possa se alimentar todos os dias.

Companheiras e companheiros,

Não podemos naturalizar a fome, como não podemos aceitar passivamente a irresponsabilidade no tratamento do Covid.

O Brasil já provou que pode vencer suas adversidades.

Vamos outra vez juntar forças para reconquistar a democracia, vencer o Covid, o desemprego e a fome.

Mais uma vez, conto com vocês para tornar esse sonho realidade.”

Luiz Inácio Lula da Silva 

Carregar mais notícias
Comments are closed.

Vejam também

Petistas comemoram novos ares democráticos na América Latina e rechaçam proposta de mudar Constituição de 88

Parlamentares da Bancada do PT comemoraram na sessão virtual, desta terça-feira (27), os v…