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Comissão de Cultura promove encontro histórico entre chargistas e o Parlamento

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A Comissão de Cultura, presidida pela deputada Benedita da Silva (PT-RJ), promoveu nesta quarta-feira (6) um encontro histórico entre chargistas e o Parlamento. Pela primeira vez, a charge como expressão cultural e política no Brasil é debatida na Câmara dos Deputados. “É o primeiro de muitos que virão. É nosso compromisso fazer com que o Brasil se encontre com a sua cultura”, afirmou Benedita.

A deputada informou que pretende criar um espaço na Câmara para abrigar a produção dos chargistas. “Queremos prestar homenagem para que eles tenham condição de exibir suas charges sem que haja nenhuma perseguição. Esta Casa precisa ter todas as culturas representadas. Nós fazemos várias exposições, vários espaços, e ter também acervo desse trabalho e muito importante. Vivemos aqui risos e choros e, termos um centro para abrigar essas charges, esse centro de humor, seria fantástico”, observou a deputada. Ela disse que vai levar essa ideia ao presidente dessa Casa, deputado Rodrigo Maia.

O chargista Carlos Latuff, um dos convidados, relatou que esta é a primeira vez, em 50 anos de vida, que põe os pés no Congresso Nacional. Ele discorreu sobre a ditadura. Falou sobre a censura que fez parte de um momento sombrio pelo qual o Brasil passou. O artista dos traços e riscos conclamou ao Parlamento brasileiro para não deixar que a sombra desse passado volte a rondar o País.

“Acho que é dever de cada parlamentar ter essa consciência de que a ditadura, seja ela qual for, não pode voltar. Não pode aceitar que qualquer deputado ou senador – independentemente de partido – venha defender a ditadura, o AI-5 e censura neste Parlamento. Isso deve ser rechaçado com todas as letras”, defendeu Latuff. Ele ainda acrescentou que o chargista só existe na democracia. “Numa ditadura não existe a liberdade do artista. Tem gente querendo trazer a ditadura e a censura de volta”, alertou.

Arte para modificar a realidade

Para Daniel Queiroz Galvão, o Pxeira, o debate trouxe a importância dessa arte para modificar a realidade. Segundo ele, a arte vem para fazer o amor e a revolta brotarem, para fazer a flor surgir. “Acho que essa força que vem do fundo do nosso coração, essa indignação é que vai gerar nossa atitude para mudar o mundo, para melhorar a realidade. Não tenhamos medo, porque são eles que têm que temer. Nós temos a história ao nosso lado e, com certeza, a gente há de vencer”, regozijou.

Foto: Gabriel Paiva

O também debatedor Bonifácio Rodrigues de Mattos, o Ykenga, destacou a sua arte. “Gostaria de afirmar que o chargista é diferente do desenhista porque ele usa o riso, a graça, para ridicularizar os poderosos, os hipócritas. Ele aponta quando rei está nu, quando todos dizem que ele está vestido”, orgulhou-se.

Na avaliação de Kellen Carvalho, a Velha Cosme, o Brasil deveria estar vivendo reformas de base, como a Reforma Agrária, a distribuição de renda, a redemocratização da mídia. Mas, segundo ela, “são coisas que ficaram no meio do caminho, não foram feitas e agora o País está nessa situação completamente oposta, de entrega de tudo”. E lamentou: “A gente está discutindo coisa que pareciam sanadas”.

De que lado você está?

Carlos Latuff chamou a atenção para a tomada de posição da sociedade brasileira. Para ele, a era dos isentos acabou.  Ele afirma que essa história do “apolítico” é um argumento que não cola mais. “Você pode ter lado e não confessar, mas você tem. Não tem imprensa independente, não tem artista independente, você tem um lado. Se você confessa ou não o lado, é outra questão. Eu tenho lado. Eu sou um cara da esquerda. Ponto. Vou morrer com isso, assumo isso publicamente”, afirmou o chargista.

Ele entende que o momento atual pelo qual o Brasil passa requer tomada clara de posição. “É muito importante que todo mundo tome lugar, tome partido das coisas, confesse seu lado. Não tem mais essa de isentão. Ou você está do lado da barbárie, do fascismo, ou você está do lado da humanidade. A arte é humanidade. Eu tenho lado e espero que os artistas assumam isso em nome da democracia ou do que restou dela”, reafirmou Carlos Latuff.

 

Benildes Rodrigues

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