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Censo Agropecuário revela concentração agrária e “fuga” do homem do campo

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Em artigo, o deputado Nilto Lula Tatto (PT-SP) chama a atenção para o fato da elevada concentração da estrutura agrária no Brasil. Essa é uma das constatações do Censo Agropecuário de 2017, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), realizado 11 anos após o primeiro levantamento. “Enquanto 12,8% da produção agrícola estão em 4,1 milhões de propriedades rurais com até 50 hectares, outros 15% estão em apenas 2.400 fazendas com áreas superiores a 10 mil hectares”, detalhou.

Os dados, que ainda são preliminares, apontam ainda redução dos postos de trabalho no campo, o que gerou “fuga” do homem do campo. “Nesse período de 11 anos, houve uma queda 1,5 milhão de empregos; ou seja, hoje temos cerca de 15 milhões de pessoas trabalhando no campo, o que explica o êxodo para as áreas urbanas e suas consequências sociais”, diz.

Leia íntegra do artigo:

O censo e o contrassenso

 

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas divulgou, no final de julho, resultados do censo agropecuário/2017. Realizada por este IBGE no decorrer de seis meses de trabalho, a pesquisa atualiza informações sobre o campo (população, tecnologia, equipamentos, mão-de-obra, propriedades, produtividade agropecuária etc) em relação a 2006, quando foi feita a última pesquisa. Segundo este Órgão, são dados preliminares, já que estão sendo consolidados para divulgação oficial no começo de 2019.

Uma das principais constatações, onze anos após a última pesquisa é que a estrutura agrária em nosso país ficou ainda mais concentrada. Enquanto 12,8% da produção agrícola estão em 4,1 milhões de propriedades rurais com até 50 hectares, outros 15% estão em apenas 2.400 fazendas com áreas superiores a 10 mil hectares. Reflexo do poder industrial, as Sociedades Anônimas, ao mesmo tempo em que reduziram em 75% o número de seus estabelecimentos; aumentaram expressivamente as extensões de plantio, passando de 27,8 milhões de hectares, em 2006, para 35,5 milhões, em 2017.

Nesse universo, estabelecimentos com menos de mil hectares perderam participação na área total da nossa agricultura, passando de 33,8%, em 2006, para 32%, atualmente. Já para as propriedades com dimensão igual ou superior a esta houve um salto de 45% para 47,5%, entre 2006 e 2017. E tudo isso diante de um quadro de redução da mão-de-obra, já que nesse período de 11 anos houve uma queda 1,5 milhão de empregos; ou seja, hoje temos cerca de 15 milhões de pessoas trabalhando no campo, o que explica o êxodo para as áreas urbanas e suas consequências sociais.

Ao mesmo tempo em que o IBGE aponta a “fuga” do homem do campo para a cidade nota-se, também, o envelhecimento da mão-de-obra agrária. A faixa etária dos 25 anos, por exemplo, caiu de 3,30% para 2,03% entre 2006 e 2017. Já no patamar dos 35 anos esse percentual cai de 13,45% para 9,49%, no mesmo período. Ao contrário disso, nos grupos mais velhos foram apontados crescimento desses índices, assim identificados: de 45 a 55 anos saltou de 23,34% para 24,77%; entre 55 até 65 anos, de 20,35% para 24,01%; e acima de 65 anos passa de 15,52% para 21,41%. Um dado interessante é que o total de estabelecimentos nos quais o produtor é do sexo feminino elevou-se de 12,7% para 18,6%, enquanto os homens passaram de 87,3% para 81,4% do total.

Ao lado de uma estrutura fundiária concentrada, que expulsa o trabalhador rural do campo e do preocupante dado socioeconômico sobre mão-de-obra, a triste realidade dos agrotóxicos. Na contramão de uma tendência mundial que é a redução do uso desses pesticidas, o IBGE registra aumento de 21,2% de sua utilização em nossa agricultura. Maior importador desses produtos do planeta, o Brasil ainda permite o consumo de 14 tipos de substâncias já proibidas pelo mundo afora. Somente em 2017 foram importados mais de 56 milhões de toneladas de pesticidas. Há 11 anos, 1,4 milhões de estabelecimentos utilizavam essas substâncias químicas; agora são 1,7 milhões. Isso, é obvio, coloca em risco a saúde e a vida das pessoas, além de danos irreparáveis ao meio ambiente.

O contrassenso é que enquanto países como Rússia, China e Estados Unidos, entre outros procuram criar e adotar tecnologias capazes de reduzir progressivamente até chegar à não utilização de agrotóxicos, o Brasil insiste em permanecer como a “menina dos olhos” de poderosas empresas produtoras desses venenos químicos ao aumentar cada vez mais seu consumo. Tem aí, é claro, a ganância do lucro rápido e a força do lobby de multinacionais como Bayer, Basf, Syngenta, só para citar algumas. O “Pacote do veneno” expresso no PL 6902 que a bancada ruralista quer aprovar é uma das evidências dessa triste realidade

Os dados consolidados da pesquisa IBGE sobre o censo agropecuário/2017, que serão divulgados somente no começo de 2019, devem nos trazer vêm com informações mais detalhadas acerca do agro brasileiro que, pelo apresentado até aqui, não é nada pop. Haja vista as informações iniciais em torno de concentração de propriedade, aspectos socioeconômicos e utilização de agrotóxicos, que revelam a necessidade urgente de uma mudança radical em nosso modo de produção agrícola, com prioridade à agroecologia e efetiva reforma agrária em nosso país.

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