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Machismo é exposto na Copa da Rússia, afirma Ana Perugini

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A deputada federal e presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, Ana Perugini (PT-SP), destaca em artigo, que o machismo ainda impera no futebol. Ela cita o exemplo dos torcedores brasileiros que repetiram frases machistas em português, para algumas mulheres na Copa da Rússia. Ana Perugini lembra também do vexame patrocinado contra a ex-presidenta Dilma Rousseff, em 2014. “Quem assistiu à abertura da Copa no Brasil, em 2014, e viu um estádio lotado soltar palavrões a plenos pulmões contra a então presidenta da República Dilma Rousseff não pode se dizer surpreendido”, afirma a parlamentar, que condena as agressões verbais, psicológicas e físicas das quais mulheres são vítimas diariamente. Leia o artigo na íntegra.

 

O futebol e a mulher

Ana Perugini

Assistimos, envergonhados, a torcedores brasileiros expondo mulheres e crianças na Rússia, sede da Copa do Mundo, fazendo-as repetir frases machistas em português, com xingamentos e alusões aos órgãos sexuais femininos. Um dos homens identificados, o engenheiro civil Luciano Gil, declarou em entrevista ao UOL que “Somos pais de família, trabalhadores e vocês estão acabando com a vida da gente […].”

Quando mulheres têm suas fotos íntimas divulgadas por seus ex-companheiros, a sociedade reage duramente contra elas: “quem mandou se expor e permitir que fotos fossem tiradas nesses momentos?”, questionam os machistas de plantão. Já os homens, em situações semelhantes, são vistos como vítimas. Dois pesos, duas medidas.

Essa exposição é um suplício para algumas mulheres. Considerando as denúncias veiculadas na imprensa entre 2015 e 2017, 127 brasileiras se suicidaram depois de terem sido vítimas de exposição na internet, de acordo com o estudo “Crimes cibernéticos, violência contra a mulher e pedofilia”, feito pela Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados, órgão do qual sou coordenadora-adjunta.

Para a maioria das pessoas, a mulher só é bem-vinda no futebol como “musa”. Isso fica evidente com o desrespeito dentro e fora das quatro linhas, sejam atletas, jornalistas, arbitragem, equipe técnica ou torcedoras. Mulher na arbitragem não erra porque é passível de erro, mas erra porque é mulher.

Aceita-se como normal uma mulher não ser bem remunerada, ter péssimas instalações ou equipamentos de treino. Mal sabem que muitas mulheres são vítimas de abusos de “olheiros” e técnicos que, com a promessa de colocarem seus nomes em listas de convocações ou de equipes do exterior, as exploram de várias formas, inclusive sexualmente. As vítimas, por medo, não denunciam.

Infelizmente, não podemos dizer que fomos surpreendidos com a postura machista e misógina dos brasileiros em solo russo. Quem assistiu à abertura da Copa no Brasil, em 2014, e viu um estádio lotado soltar palavrões a plenos pulmões contra a então presidenta da República Dilma Rousseff não pode se dizer surpreendido.

Da mesma maneira, aqueles que dizem, diariamente, que mulher não entende de futebol não gosta de futebol ou não sabe jogar, mesmo a Marta tendo sido eleita cinco vezes a melhor jogadora do mundo, não podem se dizer surpreendidos.

Quem grita para o jogador que não está bem em campo que ele tem que “jogar igual homem” ou que xinga a torcida adversária ou a arbitragem com termos como “mulherzinha” e afins não pode se dizer surpreendido. Quem acha graça ou não vê nada demais que um jornalista tente silenciar sua colega em programa de rádio, ao mandá-la para a cozinha, não pode ter se surpreendido.

A única surpresa para essas pessoas que escutam ou fazem diariamente “brincadeiras” machistas contra a mulher no esporte é que as mulheres não estão mais aceitando caladas esses insultos e estão denunciando nas redes sociais. Nas redes, nas arquibancadas, nas camisas do time preferido, as mulheres vêm denunciando o machismo, o preconceito e a falta de patrocínio.

As mulheres estão fazendo um levante contra a violência que sofrem dentro e fora do campo, contra a discriminação e exclusão nos espaços de fala.

Um dos lugares desse levante é a segunda edição do Encontro Nacional de Mulheres de Arquibancada, previsto para acontecer em agosto e que já conta com mais de 500 inscrições. O encontro nasceu com o objetivo de discutir a participação feminina nos estádios e estratégias contra o machismo nas torcidas. Nosso mandato participou da primeira edição do evento, que ocorreu no Museu do Futebol, em São Paulo, e reuniu cerca de 350 mulheres representantes de 50 torcidas e coletivos de 11 estados brasileiros.

Em 2018, tivemos o movimento das jornalistas esportivas com o #DeixaElaTrabalhar, que trouxe o debate sobre os episódios de assédio vivido pelas jornalistas em coberturas de eventos esportivos. A ideia surgiu depois que Bruna Dealtry, do canal “Esporte Interativo”, foi beijada à força por um torcedor durante uma transmissão ao vivo. Aparentemente, é preciso debater ainda mais o direito de a mulher trabalhar na área esportiva sem ser importunada, pois durante as transmissões da Copa tivemos o caso da repórter Júlia Guimarães, do canal por assinatura SporTV, surpreendida por uma tentativa de beijo enquanto gravava entrevista com um grupo de torcedores brasileiros.

Uma pesquisa do Datafolha feita no ano passado revelou que 42% das entrevistadas relataram ter sofrido assédio, sendo que entre as jovens de 16 a 24 anos esse índice sobe para 56%. Não podemos continuar tratando como “brincadeira” atos que ratificam a existência de agressões verbais, psicológicas e físicas das quais mulheres são vítimas diariamente.

Nós queremos ser parte dessa paixão nacional. Queremos ocupar as arquibancadas sem sermos assediadas, termos voz nas diretorias dos clubes e sermos respeitadas como atletas, como jornalistas, como equipe técnica, como arbitragem, como torcedoras. É pensando nisso que organizamos um debate na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher sobre a falta de apoio ao futebol feminino e a falta de respeito às mulheres dentro e fora dos campos. O debate acontecerá no próximo dia 5 de julho, na Câmara dos Deputados.

 

Ana Perugini é deputada federal pelo PT-SP, coordenadora-adjunta da Bancada Feminina, presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados e coordenadora-geral da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos Humanos das Mulheres

 

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