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Lula defende “democracia de muitas vozes” no retorno do Jornal do Brasil

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Lula destaca em artigo que a “democracia precisa de muitas vozes”

“Num país com uma das mídias mais concentradas do mundo, a circulação de mais um diário impresso já é por si uma boa notícia. Melhor ainda se este diário é o JORNAL DO BRASIL, retomando uma longa tradição de jornalismo crítico, análise política e tribuna de debates”.

Assim tem início o artigo de Luiz Inácio Lula da Silva publicado neste domingo na edição impressa do periódico, que está de volta às bancas do Rio de Janeiro.

O JB, como é conhecido, teve sua edição impressa esgotada nas bancas neste domingo, em uma clara mostra do anseio da população por uma mídia menos concentrada em uma cidade em que os veículos do Grupo Globo monopolizam o mercado.

A edição especial do JB, com quatro cadernos, trouxe depoimentos de antigos jornalistas, de personalidades e autoridades, relembrou artigos, reportagens e fotografias históricas e premiadas do periódico, e apresentou a nova equipe de editores e colunistas.

No artigo de Lula, se lê: “A democracia não é o silêncio, mas também não pode se resumir à voz única de uma mídia concentrada em poucos e poderosos grupos familiares, praticamente unânimes em suas posições políticas”. Que assim seja.

Além do ex-presidente, também assinam colunas no jornal deste domingo Tereza Cruvinel, Hildegard Angel, Jan Teophilo, Renê Garcia Jr e Renato Maurício Prado, entre outros.

(Agência de Notícias do PT)

Leia o artigo na íntegra

 

A democracia precisa de muitas vozes

Luiz Inácio Lula da Silva

Num país com uma das mídias mais concentradas do mundo, a circulação de mais um diário impresso já é por si uma boa notícia. Melhor ainda se este diário é o JORNAL DO BRASIL, retomando uma longa tradição de jornalismo crítico, análise política e tribuna de debates.

A imprensa brasileira teve ao longo da sua história inúmeros exemplos de bom jornalismo e de coragem editorial, dos quais a trajetória do JORNAL DO BRASIL está repleta. A edição de 14 de dezembro de 1968, denunciando com inteligência e sutileza o arbítrio do AI-5; a primeira página sem manchete (vetada pela censura) de 12 de setembro de 1973, denunciando o golpe militar no Chile; a trágica imagem do flagelado nordestino com o calango que tinha caçado para comer; e não posso me esquecer que o JB foi o único jornal a publicar na primeira página a greve da Scania de 1978, a primeira de uma série que iria mudar a história do Brasil.

São exemplos da ousadia e criatividade que fizeram do JB uma de nossas maiores escolas de jornalismo.

Os tempos que vivemos, no entanto, exigem uma abordagem extremamente crítica dos grandes meios de comunicação brasileiros. A democracia não é o silêncio, mas também não pode se resumir à voz única de uma mídia concentrada em poucos e poderosos grupos familiares, praticamente unânimes nas suas posições políticas.

Um jornal sem opinião seria um jornal sem alma. Mas o que vemos no Brasil é a opinião e a posição política dos donos da imprensa distorcendo fatos, silenciando e censurando  expressivos setores da sociedade, validando mentiras de autoridades sempre que lhes convém. Mais de uma vez em nossa história, os maiores veículos da imprensa atuaram abertamente contra a democracia. Foi assim em 1954, na campanha de difamações que levou Getúlio Vargas ao suicídio, e em 1964, dando cobertura ao golpe contra o governo de João Goulart.

Em 1984, o mais poderoso conglomerado de comunicação do país, as Organizações Globo, colocou-se mais uma vez contra a vontade popular, censurando a campanha das Diretas até o momento em que se tornou impossível vencer a maré das ruas.

Décadas depois, a Globo falsificou a própria história, para esconder que censurou as diretas, e pediu desculpas por ter apoiado o golpe de 64, origem do poder que ela hoje ostenta. Nem a história deixou de ser história nem a Globo deixou de se envolver em ataques contra a democracia, como se comprovou na campanha para derrubar a presidenta Dilma Rousseff em 2016. Em nosso governo, tentamos, mas não conseguimos avançar num projeto de regulamentação dos meios de comunicação. Hoje estou mais convencido do que nunca de que a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa têm de ser para todos, não apenas para os setores da sociedade que detêm os jornais e as concessões de rádio e televisão. Democratizar o acesso à informação correta e aos meios de comunicação tornou-se prioridade na pauta democrática do país. Por isso, saúdo o retorno à circulação do JORNAL DO BRASIL e torço para que o jornal volte a ser a referência de jornalismo que um dia foi e que a democracia brasileira tanto precisa.

 

* Ex-presidente da República

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