Home Portal Notícias Lula vai percorrer o Brasil para denunciar o “espetáculo de pirotecnia” de Moro e Globo

Lula vai percorrer o Brasil para denunciar o “espetáculo de pirotecnia” de Moro e Globo

23 min read
0

lula coletiva 04 03016“Eles acenderam em mim a chama da luta”. Com esta frase marcante, entre muitas outras, menos de trinta minutos foram mais do que suficientes para que a sociedade brasileira – mobilizada pelo “espetáculo de pirotecnia” da Rede Globo e outros veículos da mídia – sentisse os brios altivos e ativos do presidente mais popular da história do País. Embora magoado e ofendido, como ele próprio reconheceu no pronunciamento à imprensa, feito na sede nacional do PT, em São Paulo (SP), na tarde desta sexta-feira (4), Lula garantiu que está com muito “tesão” para participar da vida política do Brasil.

O ex-presidente se disse “indignado” com o que fizeram com sua família, e seus companheiros do Instituto Lula e do PT – vítimas de uma operação de condução coercitiva e busca e apreensão no início do dia. Apesar disso, se colocou à disposição dos movimentos sociais, centrais sindicais e todas as organizações de esquerda para percorrer o País e denunciar o golpismo comandado por setores do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal, em conluio com parte da imprensa.

“Enquanto os advogados não sabiam nada, alguns meios de comunicação já sabiam. É lamentável que uma parcela do Judiciário brasileiro esteja trabalhando em associação com a imprensa”, repudiou Lula.

O episódio, entretanto, talvez tenha servido para destravar as amarras que vinham deixando a militância petista tímida e acanhada. “O que aconteceu hoje era o que precisava acontecer pro PT levantar a cabeça. Há muito tempo que o PT estava de cabeça baixa. Há muito tempo que todo santo dia alguém faz o PT sangrar. Não precisa prova, é só dizer”, lembrou.

Quem esperava um Lula abatido, cansado, cabisbaixo, se deparou com um homem septuagenário com uma energia e uma lucidez política nunca antes vistas na história desse País. “Se quiseram matar a jararaca, não bateram na cabeça. Bateram no rabo e a jararaca tá viva como sempre esteve”, ironizou Lula ao final do pronunciamento.

Confira os trechos mais importantes da fala de Lula em relação ao contexto político – que não dizem respeito diretamente ao processo judicial em si – e à reação que deve se desencadear a partir desta data histórica.

[LEIA AQUI A MATÉRIA SOBRE AS RESPOSTAS DE LULA SOBRE O PROCESSO JUDICIAL]

FAMÍLIA E AMIGOS

Enquanto nenhum desses que foram na minha casa trabalhavam, com 11 anos a Marisa foi empregada doméstica. E eu acho que ela merecia respeito. Não há nenhuma explicação do porque eles foram atrás dos meus filhos. Nenhuma, a não ser o fato de eles serem meus filhos. Hoje nesse País, ser amigo do Lula parece que virou uma coisa perigosa. É preciso criminalizar o PT e criminalizar o Lula porque esses caras podem querer continuar no governo.

PRECONCEITO DA ELITE

Não há outra coisa para incomodá-los a não ser o fato de a gente ter trabalhado todos esses anos pra fazer com que as pessoas do andar de baixo subissem um degrau, na perspectiva de chegar ao andar de cima. O velho Frias, dono da Folha de São Paulo, quando era vivo, me dizia: ‘Oh Lula, você precisa parar de querer subir degrau. Os do andar de cima não vão deixar vocês chegarem no andar de cima. A elite brasileira é muito conservadora, tem complexo de vira-latas. Ela não vai permitir que vocês cresçam’. E nós crescemos. Chegamos à presidência. E nós provamos que os pobres – que eram a razão da desculpa deles para não fazerem nada por esse País, sempre que perguntávamos, diziam que ‘não dá pra fazer, tem muito pobre, tem muita pobreza’ – são a solução para esse País. Na hora que fizemos os pobres terem acesso à universidade, acesso ao mínimo elementar pra comer, ter acesso ao emprego, a benefícios como o Bolsa Família, como o Luz para Todos, como o Pronatec, isso incomodou muita gente. ‘E é preciso então destruir essa voz dos de baixo’.

PRESIDÊNCIA E DILMA

Eu deixei a presidência e achei que tinha cumprido com a minha tarefa. Eu tinha duas teses: presidente bom é aquele que se reelege. E ‘bi-bom’ é aquele que faz sucessor. Então eu já me considerava ‘bi-bom’, aí fiquei ‘tri-bom’ quando nós reelegemos a Dilma. E eles estão desde o dia 26 de outubro de 2014 não permitindo que a Dilma governe esse País. Eu vi um delegado da Polícia Federal dizer um dia desse que mudar ministro da Justiça era ‘mexer com não sei o quê’ e ‘nós precisamos de autonomia funcional e administrativa’. Se tem alguém aqui nesse País que precisa de autonomia, chama-se Presidenta da República. Estão cerceando a liberdade dessa mulher de governar esse País.

JUÍZES PREMIADOS PELA MÍDIA

Eu acho que o nosso País não pode continuar assim. Qualquer juiz que pune alguém recebe prêmio da Rede Globo e da revista Veja e, a partir do prêmio, todo dia tem que prestar contas. Antes de os advogados saberem que o seu cliente vai ser chamado, a imprensa recebe a informação.

INSTITUIÇÕES FORTES

Eu acredito em instituições de Estado fortes. As instituições fortes são a garantia do Estado democrático contra a arrogância e a prepotência dos governantes. E vocês sabem que desde a Constituinte eu briguei para termos um Ministério Público forte. Cheguei à Presidência e a primeira coisa que eu fiz foi instituir uma coisa que eu trazia do movimento sindical: vou indicar sempre o primeiro da lista indicado pela corporação. Talvez pela minha formação corporativa, de sindicato. Tem que ser o primeiro reitor, o primeiro procurador… eu adotei isso no Brasil. E não me arrependo. Mas é importante que os procuradores saibam que uma instituição forte, uma instituição muito forte, tem que ter pessoas muito responsáveis.

CONFERENCISTA MAIS CARO DO MUNDO

No exterior, o Brasil era motivo de orgulho e por isso eu virei um conferencista importante. Ninguém queria que eu discutisse sexo dos anjos. As pessoas queriam que o Lula falasse sobre as coisas que foram feitas no Brasil. ‘Que milagre vocês fizeram para aprovar as cotas, colocando negros nas universidades?’, ‘Que milagre vocês fizeram para criar o Prouni?’, ‘Que milagre vocês fizeram para levar energia para 15 milhões de pobres nesse País?’, ‘Que milagre vocês fizeram para que o salário-mínimo aumentasse todos esses anos?’, era isso que as pessoas queriam saber. E por isso eu me tornei o conferencista mais caro do mundo, junto com o Bill Clinton. Várias empresas, que agenciam vários ex-presidentes, Kofi Anna, Tony Blair, Gordon Brown, Sarlozy, Chirac… todo mundo queria me empresariar. E a Clara Ant falou: ‘Não, aqui quem vai empresariar somos nós, do Instituto. Você é um produto nacional. Não tem multinacional aqui. E quanto vai cobrar? Quem é que cobra mais? É o Clinton? Então vai ser igual ao Clinton. Paga quem quiser, contrata quem quiser’. Eu não tenho complexo de vira-latas. Eu sei o que eu fiz nesse País. Eu sei o orgulho e autoestima desse povo. E é engraçado que eles se preocuparam porque eu cobro duzentos mil dólares, mas não se preocuparam quando o Clinton veio aqui na CNI no mês passado e cobrou um milhão, só da CNI. Os vira-latas batem palma. ‘Nossa, como ele fala bonito. Nem entendo o que ele fala, mas como ele fala bonito. Falou tão bonito que eu não entendi”.

ESPETÁCULO MIDIÁTICO

O que eles fizeram com esse ato de hoje foi fazer que a partir da semana que vem, quem quiser um discurso do Lula, me convidem, porque eu estarei disposto a andar esse País. Porque não é possível ver um país sendo vítima de um espetáculo midiático em que coloca como corrupção um barco de quatro mil reais da dona Marisa – eu se pudesse dava um iate pra ela. Se preocupando com pedalinho de dois mil reais que ela comprou pros netos. Se preocupando porque eu uso a chácara de um amigo. Bem que a Globo poderia me oferecer o tríplex de Paraty que eu estaria lá. Eles partem do pressuposto que pobre nasceu pra comer em coxo. E eu aprendi que não. Eu quero comer comida boa.

MÍDIA QUE AMEDRONTA

Eu não estou indignado com jornalistas. Estou indignado com o comportamento de determinados meios de comunicação. Estou indignado com o julgamento precipitado, com as manchetes, que hoje amedrontam o Judiciário, amedrontam o Ministério Público, hoje amedrontam a Polícia Federal e amedrontam os políticos.

MILAGRES

Eu escapei de morrer de fome aos cinco anos de idade. Naquela terra que eu nascei, uma criança escapar de morrer é um milagre. Esse milagre aconteceu comigo. Aconteceu um segundo milagre comigo, eu consegui um diploma de torneiro mecânico. Aconteceu um terceiro milagre comigo: eu adquiri consciência política e criei um partido político. Ajudei a fundar uma central de trabalhadores. Aconteceu um quarto milagre comigo: eu e meus companheiros, muitos dos quais vocês, me levaram à presidência da República. Aconteceu um quinto milagre comigo: eu fui melhor do que todos eles que governaram esse País. Eu fui melhor que todos os cientistas políticos, que todos os fazendeiros, todos os advogados e todos os médicos que governaram esse País. Eu provei que o povo humilde desse País pode andar de cabeça erguida. Que o povo humilde desse País pode comer carne de primeira. Que o povo humilde desse País pode ter dente pra sorrir e comer um pedaço de amendoim. Muita gente não sabe o que é isso.

CANDIDATURA EM 2018

Não sei se serei candidato em 2018. A natureza é implacável com a gente que ultrapassa 70… mas como a ciência também avançou… e essas coisas que eu faço aumenta o meu tesão de participar das coisas nesse País. Eu descobri agora que nem tudo está acabado. É preciso recomeçar. Nós vamos recomeçar de novo, fazendo as mesmas coisas que a gente fazia. Eu viajava de São Paulo pro Acre pra falar com quatro pessoas. E fazia discurso às duas horas da tarde como se tivesse um milhão de pessoas. Me esgoelava uma hora e meia. Conseguimos criar um partido. Estou disposto a fazer as mesmas coisas.

Rogério Tomaz Jr.
Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

 

Carregar mais notícias
Comments are closed.

Vejam também

Atentado contra caravana é reação da elite que vê aproximar-se a vitória de Lula

“O que aconteceu ontem (27) é reflexo do que estamos sentindo em toda a caravana. O fascis…