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O legado de Nelson Mandela, Santo e Pecador

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*Márcio Costa

Há pessoas – pouquíssimas delas, entre elas Gandhi, Luther King, Madre Teresa, Desmond Tutu,  o Dalai-Lama e, mais recentemente, o Papa Francisco – que transcendem a mera influência paroquial ou nacional, tornando-se cidadãos do mundo. Nessa seleta lista igualmente convém acrescentar o líder sul-africano Nelson Mandela, recentemente falecido.

Ansiamos por heróis, mas os heróis são poucos. Nelson Mandela talvez tenha sido o último dos heróis puros do nosso planeta. Foi o símbolo sorridente do sacrifício e da retidão, venerado por milhões de pessoas como um santo vivo. Contudo, esta imagem pecava por ser unidimensional. Mandela seria o primeiro a dizer que estaria longe de ser um santo – e não se tratava de falsa modéstia.

O caráter de Mandela foi uma mescla de realeza africana e aristocracia britânica. Era um cavalheiro vitoriano que envergava um roupão de seda. Os seus modos eram corteses – afinal de contas foi educado nas escolas coloniais britânicas por professores que tinham lido Dickens quando este ainda escrevia. Se estava em Londres ou em Joanesburgo comia com elegantes talheres de prata; em casa, na sua terra natal no Transkei, preferia comer com as mãos, como é costume entre os nativos.

Foi um sedutor poderoso – seguro de que vai convencer o seu interlocutor, seja qual for o processo a utilizar. Era atento, cortês, senhor de si e, para usar uma palavra que detestava, fascinante. E cultivava esse fascínio. Antes de se encontrar com alguém informava-se o mais possível acerca dessa pessoa. Quando foi libertado, lia os artigos dos jornais e felicitava os jornalistas citando pormenores.

Quando acreditava que tinha razão, defendia seu ponto de vista com uma pertinácia inflexível. Ele afirmava de modo assertivo que: «Isto não está certo.» Quer se tratasse de um vulgar assunto mundano ou de um problema de importância internacional, o tom era sempre o mesmo. Quando via que uma coisa estava mal, procurava remediá-la. Quando presenciava uma injustiça, tentava corrigi-la. Em termos básicos, foi esta intolerância pela injustiça que sempre o motivou. Foi a força motriz do seu descontentamento, o seu veredito simples sobre os fundamentos imorais em que se assentava o Apartheid.

Criticado muitas vezes por ser um pouco egocêntrico e por seu governo ter sido amigo de ditadores que foram simpáticos ao Congresso Nacional Africano, a figura do ser humano que enfrentou dramas pessoais e permaneceu fiel ao dever de conduzir seu país, suprimiu todos os aspectos negativos.

Mandela foi muito querido porque trouxe à lembrança dos sul-africanos o quão longe chegaram, reavivando a nostalgia por aqueles tempos em que o país era um milagre da democracia.

O ex-presidente sul-africano e Prêmio Nobel da Paz Frederik De Klerk disse que “Nelson Mandela deixou um legado fundamental após sua morte. O melhor meio de honrar sua memória será seguir o bom exemplo que ele deu. Seu principal legado político foi ter insistido na importância da reconciliação”. Evocando uma África do Sul sem “Madiba”, Frederik De Klerk insistiu na importância de se fazer “uma distinção entre o legado do presidente Mandela e o do homem Nelson Mandela. Com sua morte, não acho que isso criará uma crise na África do Sul. Acho que, pelo contrário, isso reavivará seu legado”, defendeu o último presidente do Apartheid, que negociou com Nelson Mandela o fim da dominação branca, no início dos anos 1990.

Por outro lado, o legado político perdurável de Mandela a seu povo e ao resto da África é mais enfatizado não por aquilo que tenha feito em sua breve presidência, de 1994 a 1999, senão por sua decisão de abandonar o poder. Assim, quase vinte anos depois de sua encarnação pós-apartheid, a África do Sul já elegeu seu quarto presidente, reduzindo radicalmente o perigo de que um só líder domine o Estado.

A África do Sul que, por quase quatro décadas, foi considerada pela comunidade internacional como um Estado-pária, ou fora da lei, recuperou seu prestígio e dignidade através da figura de Nelson Mandela, convertendo-se na atual grande potência africana.

Mandela continua um símbolo para negros e brancos. Para os primeiros por sua libertação de um sistema nefasto e para os segundos porque não usou da vingança. Mas para o resto da humanidade, o líder negro é um santo pecador, com defeitos perdoáveis e com qualidades que o tornam único. Um ser humano à altura de sua raça, que sempre acreditou na força da não violência e no valor da educação e da tolerância como redentoras dos povos. Afinal, como ele mesmo disse:

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta.”

 *Márcio Costa é Coordenador Administrativo da Liderança do PT na Câmara 

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