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A torcida da mídia pela inflação

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Nas últimas semanas, rentistas, setores da mídia conservadora e especuladores do mercado financeiro passaram a adotar uma estratégia para espalhar o pânico , como se o dragão da inflação estivesse de volta. Por trás desta estratégia, o interesse claro para forçar o aumento da taxa de juros no País e favorecer os setores privilegiados da sociedade. Os neoliberais e seus aliados na mídia não escondem a preferência pelos juros altos, para que os trabalhadores fiquem desempregados e os banqueiros e agentes do mercado financeiro encham  as burras com mais rendimentos e lucros. Configura-se, claramente,  uma conspiração midiática para aumentar a taxa de juros sob o pretexto de combater uma inflação que está muito longe de estar fora de controle.  

 

 O frisson nos arraiais da direita mais empedernida foi alimentado pela distorção promovida pela mídia em cima de uma declaração da presidenta Dilma Rousseff sobre a inflação. Chegaram até a repercutir a fala distorcida com um certo Mailson da Nóbrega, lembrado pelo povo brasileiro como o ministro da Fazenda que legou ao Pais uma inflação de 80% e , mesmo assim, tornou-se fonte permanente de consulta da mídia brasileira. Não há reparos a fazer à declaração de Dilma. Ela disse o óbvio: o combate à inflação não pode ser feito em detrimento do crescimento econômico.

 

Aliás, Dilma não falou algo muito diferente do que disse certa vez um avô do senador tucano  Aécio Neves, um dos arautos do negativismo que tem contaminado o noticiário da mídia conservadora, com claros objetivos políticos, ideológicos e econômicos.  Tancredo Neves afirmou que a dívida externa do Brasil não poderia ser paga com a fome do povo.

 

 Por isso,  é estranho que agora o neto esteja cercado por pessoas que fazem tudo pelo aumento da taxa de juros e, por consequência, para levar o desemprego e a fome ao povo, como deixam claro alguns sacerdotes tucanos de alta plumagem, em suas sombrias perorações teóricas.

 

 Vampirismo tucano – Estaria Aécio Neves pensando em atravessar uma campanha eleitoral inteira sem ter que dar explicações sobre o apocalíptico programa econômico que vem sendo desenhado por alguns de seus ideólogos? Em tom vampiresco, querem que o crescimento seja sacrificado para segurar a suposta inflação.

 

A formulação da presidenta Dilma Rousseff, em Durban, África do Sul, nada teve de exótica ou de extravagante; ela guarda sintonia com a definição legal dos objetivos do FED (o Banco Central dos EUA): “Conduzir a política monetária, influenciando as condições monetárias e de crédito na economia em busca do maior nível de emprego, de preços estáveis e de taxas moderadas de juros no longo prazo”. Ela é também coerente com o que vem sendo colocado em prática pelos governos liderados pelo PT desde 2003.

 

Aliás, foram estas práticas que asseguraram ao Brasil uma taxa geralmente declinante de juros desde então. E que permitiram que a inflação média verificada nos governos Lula e Dilma fosse metade da média verificada no governo FHC (1995-2002).  A propósito, cumpre registrar que, nos quatro anos em que estabeleceu metas de inflação, o governo FHC só as cumpriu em duas ocasiões. Enquanto os governos Lula e Dilma sempre cumpriram as metas por eles estabelecidas.

 

Exemplos de catastrofismo na mídia não faltam. Recentemente ( 20/3),  o jornal Valor Econômico colocou na primeira página que as autoridades do setor elétrico tinham anunciado que esperavam uma precipitação pluviométrica de cerca de 89% do padrão médio para o mês de março. Mas, para a suprema glória do jornal, neste mês, só havia chovido 82% da média tradicional. Daí, na lógica enviesada da mídia, para evoluirmos para um santo apagão geral é um passo.
 
No caso, o Valor comemorou antes da hora. Ocorre que o mês de março não termina no dia 20 e desde então não parou de chover nas regiões mais importantes para o abastecimento das hidrelétricas, Sudeste e Centro-Oeste. De modo que não será surpresa se, em março, a precipitação pluvial tenha ficado acima da média histórica. Isso  sugeriria que a mídia ainda não tem poderes absolutos sobre o regime das chuvas e que suas previsões políticas, talvez baseadas em consultas com deuses do mercado, não têm base na realidade.

 

Talvez seja este tipo de fracasso meteorológico que leva a imprensa monopolizada a insistir na inflação. Com efeito, a inflação não é um fenômeno decorrente apenas de fatores objetivos, ela contém também uma dimensão psicológica. Isso pode fazer com que um empresário ou um grupo de empresários, diariamente bombardeados com previsões sobre catástrofes iminentes, com foco num descontrole da inflação, veiculadas por uma mídia monopolizada, uníssona e frequentemente fraudulenta, tome a decisão de remarcar seus preços para se proteger da “catástrofe que se avizinha” e que outro grupo tome decisão semelhante para não perder terreno para o primeiro, gerando assim a espiral inflacionária tão intensamente desejada pela mídia.

 

Manipulação – Mas não foi isso que aconteceu no imediato pós-manipulação de Durban. A reação do mercado foi no sentido oposto aos desejos dos manipuladores. Ele projetou juros futuros declinantes, numa demonstração de confiança na política do governo e os números divulgados mais recentemente confirmam a percepção do mercado e as projeções do governo.

 

O IGP-M (Índice Geral de Preços de Mercado), calculado pela Fundação Getúlio Vargas e divulgado no dia 28 de março apontou deflação em fevereiro e março. Também o IPP (Índice de Preço do Produtor), calculado pelo IBGE e também divulgado em 28 de março, acumula deflação de 0,43% no primeiro bimestre.

 

 Desse jeito, o pesadelo de uma catástrofe inflacionária, acalentado pela mídia, vai ficando cada vez menos provável. E medidas como a redução das tarifas de energia elétrica e a isenção dos tributos incidentes sobre os produtos da cesta básica afastam mais ainda o fantasma da inflação sem controle.  A manipulação grosseira da fala da presidenta e as distorções veiculadas todos os dias por certos formadores de opinião mostram que a mídia brasileira, cada dia mais, tornou-se adepta de   um jornalismo cuja preocupação última é a realidade.  No caso da fala da presidenta, como observou um especialista em comunicação, o que a imprensa trouxe foi a não-notícia, ou seja, o desmentido da interpretação de um fato específico que a própria imprensa havia criado.

 

 Diante deste quadro, a oposição e seus aliados catastróficos da mídia terão que buscar outras bandeiras. Sem programas e sem propostas para o Brasil, talvez lhe restem torcer por um desabamento do Engenhão, tomando o cuidado de esconder que o prefeito do Rio de Janeiro na época da construção do estádio era César Maia, do DEM (ex-PFL). O governo Dilma Rousseff conclui o primeiro trimestre com vitória. Retoma o crescimento econômico, com distribuição de renda, e com a inflação controlada, apesar do quadro de crise mundial severa.

 

 Sibá Machado é Deputado federal (PT-AC) e vice-líder da Bancada do PT na Câmara

 

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