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Abaixo o homem geleia

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rosinSempre me chamou a atenção o machismo típico das relações de poder. Os machos exercem o poder da maneira que sabem: exorbitam de sua condição de homem. Expõem seu machismo em cerimônias, atos, comentários de rodinhas e jantares de autoridades.

Periodicamente recebo convites para almoços, jantares e coquetéis. Na maioria deles, não há a mínima referência à esposa, namorada ou companheira. Ou seja: “Vá sozinho”.

Chego a alguns desses eventos, e 90% dos presentes são homens a exercer o seu direito masculino de sair sozinho, conversar sobre política – assunto de homem – e tomar decisões. Tudo entre homens.

Nessas reuniões, a mulher é tema, mas só para expô-la. Expô-la, e não esposa. Muitas vezes, até aquele momento, determinada relação era algo privado, do convívio a dois, e de repente a relação passa a ser pública. Torna-se pública com o homem contando o relacionamento a sua maneira: muitas vantagens. Uma afronta.

O machismo do poder e de seu exercício é secular, e gerou uma cultura machista que impregna 100% dos homens e mais da metade das mulheres. Há homens que negam seu próprio machismo, o que não deixa também de ser uma maneira de exercitá-lo.

O melhor é reconhecê-lo, e trabalhar no seu íntimo, cotidianamente, para vencê-lo. Há mulheres que, de vítimas do machismo, passam a ser algozes de mulheres, principalmente se estiverem em algum cargo de poder, como, por exemplo, juíza, delegada ou prefeita.

Na última semana, o desespero dos machistas que secularmente ocuparam o poder no Brasil foi exposto por dois de seus líderes, Fernando Henrique Cardoso e Tasso Jereissati.

Ambos não aceitam a liderança de um operário. Jamais imaginaram que um ex-operário na Presidência da Republica fosse lembrado como um dos melhores, senão o melhor, presidente do Brasil até hoje. Como ser derrotado, agora, por uma mulher?

Em artigo publicado dias atrás, FHC desafiou o PT a comparar o governo dele com o de Lula. Dilma respondeu por Lula, e topou a comparação. Por isso, e mais pelo desespero que começou a abater o ninho tucano, FHC e Tasso resolveram apelar para o machismo.

Imaginam que, numa sociedade machista, podem encontrar eco. Mas, de tão distantes que estão do povo, não sabem que a cultura política está mudando, e que aqueles que elegeram um operário podem – por que não? – eleger uma mulher, a primeira na história.

Uma das boas respostas a FHC e Tasso foi dada pelo jornalista Luiz Carlos Azenha, em seu blog “Vi o Mundo”.

Escreve Azenha: “Não se trata apenas de uma crítica política a que Fernando Henrique Cardoso e o senador Tasso Jereissati estão fazendo à ministra. É uma tentativa mal disfarçada de desqualificar a pessoa, como se ela fosse apenas ‘reflexo’ de um líder (nas palavras do ex-presidente) ou uma ‘candidata de silicone’, nas palavras de Jereissati. As duas críticas negam humanidade à ministra. E negam também protagonismo. As duas críticas tentam pintar Dilma como um pedaço de geleia, inerte, sem vontade própria – características que muitos homens brasileiros gostam de ver em ‘suas’ mulheres, mas que não são boas em uma líder.”

“Não deixa de ser cômico, no entanto, ver o senador Jereissati dizendo que Dilma não tem o ‘physique du rôle’ adequado à Presidência. Parece um coronel político ditando como a mulher deve ou não ser, pode ou não ser. E essa fixação por ‘desmascarar’ a mulher que não sabe o seu lugar… Sei não, mas acho que o Tasso está tentando dizer que, se ele fosse mulher, seria uma mulher muito mais atraente e interessante que a Dilma.”

Neste carnaval, como em todos os anteriores, homens como a dupla tucana são os que se deliciam com as exposições das mulheres geleias. Sei que irá demorar, mas se observadas as conquistas do último século, vê-se que o machismo está em vias de extinção e, junto com ele, esse tipo de homem. A eleição de Dilma pode vir a ser um passo importante para essa mudança de cultura.

Os comentários de FHC e Tasso Jereissati mostram que também há o homem geleia, aquele a dizer o que a geleia geral quer escutar, sem ter o trabalho de refletir.

Dr. Rosinha, é médico pediatra é deputado federal (PT-PR)

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